Geografia do Espaço Extraterrestre

Gibson Da Costa – geógrafo filiado ao CREA-RR

Nota: o termo “Espaço” (com inicial maiúscula), aqui, se referirá sempre ao espaço extraterrestre, isto é, àquele que se encontra fora dos limites da Linha de Kármán.

Por que um geógrafo se preocuparia com o espaço extraterrestre? A Geografia não é a ciência que, como indica seu próprio nome, se ocupa com o estudo da Terra? Por que estudar, então, o ambiente fora do planeta? Isso não deixaria de ser um campo da Geografia?

Essa é uma discussão enraizada nas dimensões epistemológica e ontológica da Geografia. Ou seja, definir o que (não) é ou (não) deve ser de interesse para a ciência geográfica tem a ver com as concepções que se tem sobre o que é a própria Geografia, qual sua relação com outras empreitadas científicas e/ou intelectuais, além das concepções que se tem sobre seu(s) objeto(s) de estudo.

Para responder àqueles questionamentos iniciais, não posso deixar de justificar meus interesses e atuação recorrendo a alguns autores de minha área que já lidaram, ao longo das últimas décadas, com a questão do Espaço (o extraterrestre, isto é) na Geografia. Ainda em 1974, o geógrafo físico (e geólogo) Richard J. Pike criticava a aparente falta de interesse dos geógrafos pela Lua e por Marte. Naquele artigo de 1974 e em outro de 1987, incentivou o desenvolvimento de uma Geografia Extraterrestre ou, antes, duma perspectiva extraterrestre para a Geografia.

Anos mais tarde, o geógrafo brasileiro Francisco Mendonça, num artigo de 1997, propõe a ampliação do objeto de estudo da Geografia para além do espaço geográfico terrestre. Uma década mais tarde, o também geógrafo Fraser MacDonald incentiva o desenvolvimento duma geografia crítica do Espaço, considerando a presença humana de décadas no domínio sideral.

Do contato com as ideias desses autores, e de outros, moldado por minha formação e prática em Geografia e em Ciências Planetárias, e da curiosidade cosmológica que tem me movido desde a infância, direcionei desde cedo meus estudos para aquela “perspectiva extraterrestre para a Geografia” que Pike incentivara – e para campos semelhantes como a Grande História, a Astropolítica e a Economia Espacial. Assim surgiu meu envolvimento com aquilo que denomino Geografia do Espaço Extraterrestre, e com o grupo de estudos que coordeno.

Mas o que é essa tal de Geografia do Espaço Extraterrestre?

A Geografia do Espaço Extraterrestre (ou Geografia Extraterrestre) é o campo de estudo que aplica as perspectivas, conceitos e métodos da ciência geográfica à análise do espaço situado além da atmosfera terrestre (além da Linha de Kármán). Ela busca estabelecer o Espaço como uma “esfera do social”, investigando as conexões entre a vida na Terra e o espaço sideral, tratando-o não como um vácuo indiferenciado, mas como um local de produção de conhecimento, poder e práticas humanas (MACDONALD, 2007).

Esta disciplina encara o espaço sideral como um objeto geográfico antropizado (humanizado), resultante da intervenção direta ou indireta do ser humano nas últimas décadas. Seus principais focos incluem:

  • Produção Social do Espaço: A aplicação da ideia de que o espaço extraterrestre é produzido através da ação social, tecnológica e política.

  • Geografia das Relações Homem-Meio: A expansão das fronteiras de interesse e influência humana para além da Terra, transformando paisagens extraterrestres em “híbridos eco-sociais” através da exploração científica e comercial.

  • Escala e Globalização: O questionamento de como a linguagem do “global” e as escalas geográficas tradicionais se transformam quando órbitas e outros planetas se tornam parte do cotidiano técnico e econômico da humanidade.

A Geografia do Espaço Extraterrestre não é uma disciplina isolada, mas um campo que perpassa diversas subáreas tradicionais:

  1. Geografia Humana e Crítica: É o campo onde se situa a análise do Espaço como uma esfera social, considerando leituras marxistas, feministas e pós-coloniais sobre o “geopoder”.

  2. Astropolítica: Talvez o ramo mais desenvolvido, a “astropolítica” estuda a relação entre a tecnologia e o terreno do espaço exterior para o desenvolvimento de estratégias políticas e militares das potências terrestres.

  3. Geografia Física (Geomorfologia Planetária): Estuda as formas de relevo e os processos superficiais em corpos sólidos do Sistema Solar (como Marte ou a Lua), utilizando frequentemente análogos terrestres para interpretação.

  4. Geografia Histórica e Cultural: Investiga a evolução das imaginações geográficas sobre o cosmos, desde a cartografia celestial antiga até a iconografia contemporânea (como as fotos da missão Apollo) e a subjetividade dos astronautas.

  5. Cosmografia Geográfica: Alguns autores defendem que este campo representa um retorno à tradição cosmográfica do início da modernidade, que reconhecia a inseparabilidade entre as formas terrestres e celestiais.

 

Para saber mais

COSGROVE, Denis. Extra-Terrestrial Geography: Cosmography Before and After Von Humboldt. UCLA: Department of Geography, 2000.

COSTA, Gibson P. T. da. Da Terra ao Resto do Cosmos: Reflexões sobre o Espaço Extraterrestre como Objeto Geográfico. Rio de Janeiro: UNESA, 2024.

DOLMAN, Everett C. Astropolitik: Classical Geopolitics in the Space Age. Londres: Frank Cass, 2002.

DUNNETT, Oliver et al. “Geographies of Outer Space: Progress and New Opportunities”. Progress in Human Geography, v. 43, n. 2, 2019.

MACDONALD, Fraser. “Anti-Astropolitik: Outer space and the orbit of geography”. Progress in Human Geography, v. 31, n. 5, 2007.

MENDONÇA, Francisco. “A conquista de Marte e a expansão da análise geográfica (Notas para um debate)”. RAEGA – O Espaço Geográfico em Análise, v. 1, 1997.

PIKE, Richard J. “Why Not an Extraterrestrial Geography?”. The Professional Geographer, v. 26, n. 3, 1974.

PIKE, Richard J. “Geography on the Planets: Gift of Remote Sensing”. The Professional Geographer, v. 39, n. 2, 1987.

SOBREIRA, Paulo Henrique Azevedo. Cosmografia Geográfica: A Astronomia no Ensino de Geografia. Tese de Doutorado, USP, 2005.

VON HUMBOLDT, Alexander. Cosmos: A Sketch of the Physical Description of the Universe. 1849.