Gibson Da Costa
1. Introdução
Este texto consiste de minhas anotações para uma oficina de discussões filosóficas sobre uma série exibida por um serviço de streaming com meus alunos de Filosofia. Não se trata dum ensaio ou texto formal. Apenas anotações para nossas discussões em sala de aula – e publicadas aqui posteriormente. Com a publicação destas notas, cumpro a promessa que fiz aos presentes no dia de nossa atividade.
Silo é uma série de ficção científica criada por Graham Yost para a Apple TV+, baseada na trilogia de Hugh Howey. A terceira temporada, com dez episódios, foi exibida entre 3 de julho e 4 de setembro de 2026, e a quarta será a última. A terceira temporada muda o sentido das anteriores: revela que o Silo 18 é governado à distância por um Silo 1 e mostra, em flashback, a decisão política que criou os silos.
A tese que defendi foi a de que Silo narra a descoberta de que o poder não tem fundamento e, ainda assim, não desaparece quando perde sua justificativa. Utilizei o (pós-)anarquismo para explicar por que o poder do silo é ilegítimo; e o existencialismo para explicar por que ele continua sendo obedecido. Também defendi que, a partir da perspectiva filosófica que assumi da série, a mesma só se tornava inteiramente inteligível quando as duas leituras fossem combinadas.
A discussão combinou duas tradições que têm parentesco histórico. Do anarquismo clássico, retomo a crítica à autoridade que não consegue se justificar (McLAUGHLIN, 2007). Do pós-anarquismo, retomo a ideia de que o poder também produz os sujeitos que governa (NEWMAN, 2013). Do existencialismo, retomo a tese de Sartre de que não há natureza humana anterior à ação e de que cada um responde pelo que faz da própria situação (SARTRE, 1965; 2015).
O ponto de encontro entre essas tradições é a recusa da essência. O pós-anarquismo rejeita um sujeito revolucionário com natureza boa e fixa; o existencialismo rejeita qualquer natureza humana dada de antemão. Ambos deixam a liberdade sem garantias, e é exatamente esse o drama dos personagens de Silo.
2. O mundo dos silos nas três temporadas
As três temporadas revelam o poder em camadas sucessivas: primeiro uma lei local (o Pacto), depois um governo oculto (o TI de Bernard), por fim uma autoridade externa (o Silo 1 e sua Diretiva).
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Camada de poder |
Como aparece na série |
Temporada |
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O Pacto |
Lei do Silo 18; proíbe relíquias e pune com a “limpeza” quem pede para sair |
1 |
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Judiciário e TI |
O Judiciário controla segurança e reprodução; Bernard Holland, chefe do TI, governa de fato e manipula as transmissões |
1 e 2 |
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A Salvaguarda |
Tubulação capaz de bombear veneno para matar toda a população de um silo |
2 e 3 |
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O Algoritmo |
Voz que orienta os gestores do Silo 18; é operada por Victor, a partir do Silo 1 |
3 |
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O Silo 1 e a Diretiva |
Silo de comando dirigido pela senadora Thurman; a Diretiva se sobrepõe ao Pacto |
3 |
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Troy |
Daniel Keene, com a memória apagada, é despertado da criogênia para reprimir rebeliões |
3 |
Primeira e segunda temporadas. Juliette Nichols, mecânica nomeada xerife, descobre que os trajes de limpeza são sabotados. Sai do silo, sobrevive e vê dezenas de outros silos. Encontra o Silo 17 devastado e o sobrevivente Solo, enquanto Mecânica se rebela no Silo 18. Volta e termina a temporada presa com Bernard numa câmara em chamas.
Terceira temporada, no presente. Juliette sobrevive, torna-se prefeita, mas perdeu a memória e precisa reconstruir quem é enquanto é pressionada a liderar. O Algoritmo orienta Camille Sims a reprimir o levante. Camille simula envenenar as minas, mas libera apenas oxigênio, o que dá tempo para Knox e Shirley bloquearem a Salvaguarda.
Terceira temporada, nos “Tempos de Antes”. O congressista Daniel Keene e a jornalista Helen Drew investigam uma bomba suja e uma missão fracassada no Irã e descobrem que os silos foram construídos em segredo, num projeto ligado à senadora Thurman. Helen é levada com engano ao Silo 18 e Daniel é conduzido ao Silo 1, onde se torna Troy.
O desfecho. Quando cerca de dez mil pessoas do silo 17 se reúnem do lado de fora, Troy ordena um ataque com drones, gás e tiros. Charlotte Keene se recusa a participar e é afastada; Thurman premia Troy pelo massacre. Victor, que guiava o Silo 18, envia a Troy um arquivo sobre Helen e se suicida. Troy oferece a Juliette um acordo: o Silo 18 não será envenenado se nunca contatar outro silo. Ela aceita, mas planeja levar a luta ao Silo 1.
3. Existência sem fundamento e o Estado como relação
O silo justifica sua autoridade pela necessidade: se o ar lá fora mata, alguém precisa mandar. A terceira temporada desfaz essa justificativa, pois mostra que o silo não é um refúgio espontâneo, mas um projeto político deliberado. Resta saber por que a autoridade sobrevive à perda de seu fundamento.
A pergunta anarquista. Para McLaughlin (2007), o anarquismo se define filosoficamente pelo ceticismo diante da autoridade, entendida como o direito de exercer controle social e o dever correlato de obedecer. O anarquista não recusa toda ordem; recusa as autoridades que não conseguem justificar suas pretensões.
Anthony de Jasay oferece um esquema útil. O Estado, diz ele, é uma necessidade, uma conveniência ou “uma imposição sustentada pela ilusão de que é necessário ou conveniente” (DE JASAY, 1997, p. 1, tradução nossa). Se a necessidade fosse provada, o argumento moral contra ele cairia, pois “dever” pressupõe “poder” (DE JASAY, 1997, p. 1-2).
Inferência analítica. O Pacto aposta tudo na primeira opção: não há vida fora do silo, logo não há alternativa à obediência. A trajetória de Juliette desloca o silo para a terceira opção. O exterior é de fato hostil, mas a imagem dele foi manipulada, e o próprio confinamento foi decidido por outros. A necessidade era, em parte, uma ilusão fabricada.
A resposta existencialista. Sartre afirma que a existência precede a essência: não há natureza humana dada de antemão, e o ser humano é aquilo que faz de si (SARTRE, 1965). Por isso, “o homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro” (SARTRE, 2015, parte IV, cap. 1, seção III). Nenhuma lei, nem mesmo a dos fundadores, pode dispensar alguém de responder pelo que faz.
O Estado como relação. O elo entre as duas tradições está na fórmula de Gustav Landauer, para quem o Estado não é “uma coisa que se pode esmagar para destruir”, mas “uma relação entre seres humanos, um modo pelo qual as pessoas se relacionam […] nós somos o Estado” (LANDAUER apud COHN, 2013, p. 440, tradução nossa).
Inferência analítica. Se o Estado é uma relação, então a autoridade do silo existe enquanto os habitantes a praticam. Isso tem duas consequências. A primeira é anarquista: o poder pode ser desfeito pela recusa de cooperação. A segunda é existencialista: quem continua cooperando escolhe continuar, ainda que diga que não tem escolha.
4. Servidão voluntária e má-fé
Os habitantes do silo obedecem porque a obediência os dispensa de escolher. La Boétie chamou isso de servidão voluntária; Sartre chamou de má-fé. São dois nomes para o mesmo fenômeno visto de lados diferentes: o político e o ontológico.
O lado político. No Discurso da servidão voluntária (1552), Étienne de La Boétie sustenta que são as próprias massas que “permitem, ou melhor, produzem sua sujeição, pois, se deixassem de se submeter, poriam fim à própria servidão” (LA BOÉTIE apud GRAHAM, 2013, p. 477, tradução nossa). Graham mostra que essa ideia atravessa a tradição anarquista, de Godwin e Tolstói até Landauer e Chomsky.
Os clássicos dizem o mesmo. Kropotkin observa que o Estado sobrevive porque “todos nós somos, mais ou menos, voluntária ou involuntariamente, cúmplices desta sociedade”; Proudhon resume: “todos são coniventes com o príncipe” (apud COHN, 2013, p. 440, tradução nossa).
O lado ontológico. Sartre distingue mentira e má-fé. O mentiroso conhece a verdade que esconde e a nega nas palavras; a má-fé é “mentir a si mesmo” (SARTRE, 2015, parte I, cap. 2). O garçom que “brinca de ser garçom” tenta coincidir com um papel para fugir da liberdade de não ser apenas aquilo.
Inferência analítica: três figuras. A série distribui essas atitudes entre personagens.
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Os habitantes comuns vivem em má-fé: suspeitam das limpezas e escondem relíquias, mas agem como se não soubessem. Sua obediência é a servidão voluntária de La Boétie.
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Bernard mente aos outros e se engana a si mesmo: apresenta-se como executor de uma ordem herdada, como o garçom que vive o papel para não responder pela escolha.
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Camille Sims, na terceira temporada, recebe ordens do Algoritmo e finge cumpri-las, mas libera oxigênio no lugar de veneno. É o momento em que a execução do papel se rompe e a escolha aparece.
O gesto de Camille ilustra a convergência entre as duas tradições. Para La Boétie, basta deixar de servir para que o tirano caia. Para Sartre, basta reconhecer que o papel nunca foi uma essência. O Algoritmo pode ordenar, mas depende de mãos que executem.
5. Poder sem centro? O pós-anarquismo diante do Silo 1
A terceira temporada parece dar razão ao anarquismo clássico contra o pós-anarquismo: o poder tem, afinal, um centro, e ele se chama Silo 1. Uma leitura mais atenta mostra o contrário. O centro existe, mas também ele depende de sujeitos fabricados e de obediências que podem falhar.
Duas teorias do poder. Saul Newman lembra que o anarquismo clássico via na estrutura do Estado “um lugar autônomo de poder”, que deveria ser destruído como primeiro ato da revolução (NEWMAN, 2013, p. 426, tradução nossa). O pós-anarquismo, apoiado em Foucault, acrescenta que o próprio sujeito é produzido por relações de poder. Newman cita Foucault: “o homem que nos descrevem, e que somos convidados a libertar, já é em si o efeito de uma sujeição muito mais profunda do que ele” (FOUCAULT apud NEWMAN, 2013, p. 429, tradução nossa).
As duas primeiras temporadas: poder capilar. No silo 18, o poder parece estar em toda parte e em lugar nenhum. Ele passa pela tela do refeitório, pelos vizinhos que denunciam, pela proibição de relíquias, pela escada que separa os andares. Mesmo Bernard, o governante oculto, age como peça de um dispositivo que não criou.
A terceira temporada: o centro revelado. O Silo 1 tem direção, uma Diretiva superior ao Pacto e uma Salvaguarda capaz de exterminar populações inteiras. É o “lugar de poder” do anarquismo clássico em estado puro: um soberano que decide quem vive e quem morre.
Inferência analítica. Mesmo o centro, porém, é relacional. O Silo 1 precisa apagar a memória de Daniel Keene para fabricar Troy, isto é, precisa produzir o sujeito que executa sua violência. O massacre do silo 17 depende de pessoas que aceitem comandar drones, e Charlotte se recusa. Victor, que operava o Algoritmo, se mata. O soberano depende de mãos, e as mãos podem parar.
Newman formula o problema que a série dramatiza. Se o sujeito é produzido pelo poder, de onde vem a resistência? O pós-anarquismo admite que “não há exterior essencial ao poder”, mas sustenta que a política radical precisa de “alguma noção de agência não inteiramente determinada pelo poder” (NEWMAN, 2013, p. 432, tradução nossa).
Inferência analítica. É aqui que o existencialismo completa o pós-anarquismo. Para Sartre, essa agência não vem de uma essência escondida, mas da estrutura da própria consciência, que nunca coincide com o papel que desempenha. O “exterior” que Newman procura não é um lugar, como a superfície do planeta; é a distância que cada sujeito mantém em relação ao que fizeram dele.
6. Mecânica: ajuda mútua, insurreição e o risco de um novo Pacto
Mecânica é o lugar do silo onde a cooperação horizontal já existe antes da revolta. Por isso, a rebelião que nasce ali não é apenas uma reação à opressão: é a afirmação de um modo de vida. O problema é saber se esse modo de vida sobrevive à vitória.
Ajuda mútua. Kropotkin sustentou que a cooperação é um fator de evolução pelo menos tão importante quanto a competição, contra as conclusões do darwinismo social (McLAUGHLIN, 2007, p. 159). Mecânica encarna essa tese: mantém o gerador do qual todos dependem por meio de saberes partilhados e de solidariedade entre trabalhadores. Na terceira temporada, são Knox e Shirley que bloqueiam a Salvaguarda, salvando todo o silo.
Insurreição e revolução. Stirner distinguiu as duas. A revolução busca reorganizar a sociedade numa nova ordem; a insurreição é “um levante de indivíduos […] sem consideração pelos arranjos que dela brotam” (STIRNER apud GRAHAM, 2013, p. 487, tradução nossa). Herbert Read retomou a distinção após as derrotas na Rússia e na Espanha, alertando contra a máquina revolucionária que acaba tomada pelos líderes, que então assumem as funções de governo.
Hakim Bey radicaliza essa linha. A insurreição é “temporária”, um momento que “salta para fora do Tempo” e viola a “lei” da História; não pode acontecer todos os dias, mas “dá forma e sentido à totalidade de uma vida” (BEY, 2003, p. 98, tradução nossa).
O risco da institucionalização. Sartre, na Crítica da razão dialética, descreve o mesmo dilema em outra linguagem. Indivíduos isolados formam um grupo em fusão diante de uma ameaça comum e selam sua unidade com um juramento. À medida que o grupo se institucionaliza, porém, a alienação supera a liberdade e a organização passa a ter como fim a própria preservação (REMLEY, 2024, p. 83-84).
Inferência analítica. A terceira temporada permite ler o Pacto como um juramento fossilizado. Os “Tempos de Antes” mostram um grupo político que, diante de uma ameaça real ou fabricada, selou um projeto de sobrevivência. Séculos depois, o juramento sobrevive sem os que juraram e se tornou Diretiva. É a ilustração perfeita do alerta de Read: toda máquina de salvação pode virar máquina de governo.
Prefiguração. O anarquismo responde a esse risco com a ideia de prefiguração, central na tradição desde os anos 1880: os meios da luta devem antecipar a sociedade que se deseja (FRANKS, 2018, p. 28). Mecânica prefigura uma ordem sem Pacto quando decide coletivamente e protege o silo inteiro, inclusive os que a oprimem.
O acordo com Troy. O desfecho da terceira temporada coloca essa questão à prova. Troy oferece paz em troca de isolamento: o silo 18 não será envenenado se nunca contatar outro silo. Na linguagem de Sartre, trata-se de impor a serialidade entre os silos, impedindo que se reconheçam como grupo. Juliette aceita o acordo, mas planeja rompê-lo, o que anuncia uma guerra na última temporada.
7. Juliette e Troy: memória, identidade e o sujeito sem essência
A terceira temporada constrói um espelho: Juliette e Troy são duas pessoas sem memória postas diante do poder. Uma perdeu o passado por acidente e precisa reconstruí-lo; o outro teve o passado apagado para servir. O contraste entre os dois é o centro filosófico da temporada.
Os fatos. Juliette volta do incêndio com amnésia severa e é pressionada a liderar o silo como prefeita. Recupera fragmentos de memória por meio de relíquias, como o relógio de George. Troy é Daniel Keene, despertado da criogênia sempre que um silo entra em crise; a cada despertar tem lampejos de Helen, e Victor o faz dormir de novo.
Graham Yost explica que a ideia que sustenta o personagem é a de uma memória persistente, na qual habilidades e sentimentos sobrevivem às mudanças de identidade. Sobre Juliette, afirma que ela precisa “encontrar a si mesma de novo”.
Inferência analítica: Troy como sujeito produzido. Troy é a imagem exata do sujeito descrito por Foucault e retomado pelo pós-anarquismo: não um homem reprimido pelo poder, mas um homem fabricado por ele (NEWMAN, 2013, p. 429). O Silo 1 não precisa convencer Troy; basta-lhe apagar quem ele era. A pergunta política da última temporada é se os lampejos de Helen bastam para abrir uma fissura nesse sujeito.
Inferência analítica: Juliette como projeto. Juliette vive a situação inversa. Sem memória, ela não sabe quem foi, mas continua tendo de escolher. Para Sartre, o passado é parte da facticidade, mas não define o que farei: o sentido dele depende do projeto que o retoma. As relíquias, proibidas pelo Pacto, tornam-se para Juliette instrumentos de reconstrução de si.
Há aqui uma lição política sobre a memória. Proibir relíquias e apagar lembranças são a mesma técnica em escalas diferentes: uma age sobre a história coletiva, a outra sobre a biografia individual. Em ambos os casos, o poder tenta produzir sujeitos sem passado, porque sujeitos sem passado não têm com que comparar o presente.
A convergência teórica. O pós-anarquismo recusa uma essência humana boa que o poder reprimiria; o existencialismo recusa qualquer essência anterior à existência. Juliette e Troy mostram que essa dupla recusa não leva ao fatalismo. Se não há essência a recuperar, a liberdade não consiste em voltar a ser quem se era, mas em decidir o que fazer com o que fizeram de nós.
8. Limites da leitura: quatro objeções
Uma leitura honesta precisa enfrentar as objeções que ela mesma provoca. Quatro delas são fortes o bastante para limitar as conclusões que atingi.
1. A objeção hobbesiana. O exterior de Silo é de fato hostil. Talvez alguma autoridade fosse mesmo necessária para sobreviver no confinamento. A resposta anarquista não nega a necessidade de ordem, mas a de soberania. De Jasay lembra, com Hume, que as condições da civilização, como a estabilidade da posse e o cumprimento de promessas, são anteriores ao Estado, e não produzidas por ele (DE JASAY, 1997). Mecânica, que mantém o gerador sem precisar do Judiciário, é um argumento narrativo a favor dessa tese.
2. A objeção do romantismo insurrecional. A exaltação do levante pode esconder sua fragilidade. O próprio Bey admite a crítica de que sua proposta seria um “conselho de desespero” ou um “acte gratuit existencialista”, e reconhece que ela é justa (BEY, 2003, p. 98). A série não romantiza a revolta: mostra suas mortes, suas divisões e o risco de que ela produza novos chefes.
3. A tensão entre Sartre e o pós-anarquismo. O pós-anarquismo critica o humanismo herdado do Iluminismo, e o existencialismo de Sartre se apresentou, ele próprio, como um humanismo (SARTRE, 1965). A combinação proposta aqui só funciona porque o “sujeito” sartriano não é uma essência, mas uma falta de coincidência consigo. Um leitor foucaultiano poderia considerar essa solução ainda humanista demais.
4. A objeção da indústria cultural. Silo é um produto de uma das maiores empresas do mundo, feito para manter assinantes diante da tela. Inferência analítica: isso não anula seu conteúdo crítico, mas impõe prudência. Uma série pode representar a revolta e, ao mesmo tempo, convertê-la em mercadoria. Reconhecer essa ambiguidade faz parte da leitura, e não a invalida.
9. Considerações finais
Silo mostra que ninguém governa inocentemente e ninguém obedece inocentemente. O Silo 1 não se sustenta apenas por sua força, mas pela cooperação dos que executam suas ordens. Cada habitante que obedece também escolhe obedecer.
A leitura combinada permite organizar essa conclusão em quatro teses:
- Sobre a legitimidade: o Pacto justifica-se pela necessidade, mas a terceira temporada revela que o confinamento foi uma decisão política. A autoridade do silo é, nos termos de De Jasay, uma imposição sustentada pela ilusão de necessidade.
- Sobre a obediência: a servidão voluntária de La Boétie e a má-fé de Sartre descrevem o mesmo fenômeno. O poder dura enquanto os sujeitos fingem não ter escolha.
- Sobre o poder: o poder do silo é capilar, como diz o pós-anarquismo, e também centralizado, como dizia o anarquismo clássico. Mesmo o centro, porém, depende de sujeitos fabricados, como Troy.
- Sobre a liberdade: sem essência a recuperar, a liberdade não é retorno a uma natureza boa, mas decisão sobre o que fazer com aquilo que fizeram de nós.
A quarta e última temporada promete uma guerra entre o Silo 18 e o Silo 1. O alerta de Stirner e Read vale como pergunta para ela: se vencer, o Silo 18 abolirá a Diretiva ou apenas ocupará seu lugar? Para o anarquismo, a resposta depende de os meios prefigurarem os fins. Para o existencialismo, depende do que cada personagem escolher quando não houver mais ninguém a quem obedecer.
Questões para discussão
- A fórmula de Landauer, “nós somos o Estado”, ajuda a entender por que o Silo 18 não se rebela antes? Justifique com exemplos da série.
- Compare a servidão voluntária de La Boétie com a má-fé de Sartre. São o mesmo fenômeno ou há diferenças relevantes?
- A revelação do Silo 1 refuta a teoria pós-anarquista do poder ou a confirma?
- Troy é responsável pelo massacre do Silo 17, se sua memória foi apagada? Responda a partir de Sartre e de Foucault.
- A revolta de Mecânica é uma insurreição no sentido de Stirner ou uma revolução? Que riscos cada caminho traz?
Referências
BEY, Hakim. T.A.Z.: the temporary autonomous zone, ontological anarchy, poetic terrorism. 2. ed. Brooklyn: Autonomedia, 2003.
COHN, Jesse. Anarchism and essentialism. In: GRAHAM, Robert (ed.). Anarchism: a documentary history of libertarian ideas. Volume three: the new anarchism (1974-2012). Montréal: Black Rose Books, 2013. p. 434-445.
DE JASAY, Anthony. Against politics: on government, anarchy and order. London: Routledge, 1997.
FRANKS, Benjamin. Prefiguration. In: FRANKS, Benjamin; JUN, Nathan; WILLIAMS, Leonard (ed.). Anarchism: a conceptual approach. New York: Routledge, 2018. p. 28-43.
GRAHAM, Robert. The anarchist current: continuity and change in anarchist thought. In: GRAHAM, Robert (ed.). Anarchism: a documentary history of libertarian ideas. Volume three: the new anarchism (1974-2012). Montréal: Black Rose Books, 2013. p. 475-588.
McLAUGHLIN, Paul. Anarchism and authority: a philosophical introduction to classical anarchism. Aldershot: Ashgate, 2007.
NEWMAN, Saul. The politics of post-anarchism. In: GRAHAM, Robert (ed.). Anarchism: a documentary history of libertarian ideas. Volume three: the new anarchism (1974-2012). Montréal: Black Rose Books, 2013. p. 423-433.
REMLEY, William L. Sartre and the politics of the far-right. In: AHO, Kevin; ALTMAN, Megan; PEDERSEN, Hans (ed.). The Routledge handbook of contemporary existentialism. Abingdon: Routledge, 2024. p. 81-92.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
SARTRE, Jean-Paul. The philosophy of existentialism: selected essays. Edição de Wade Baskin. New York: Philosophical Library, 1965.
SILO. Criação: Graham Yost. Baseado na trilogia de Hugh Howey. Estados Unidos: Apple TV+, 2023-2026. Série de televisão, 3 temporadas.